O Forró da Lua, quem diria, chegou às páginas do importante jornal americano “The New York Times”. Em extensa reportagem publicada em maio de 2006, intitulada “Forró no Brasil: Sob a lua cheia, dançando no ritmo do zabumba”, o jornal apontou o evento "Forró da Lua Cheia", organizado pelo engenheiro agrícola Marcos Fernandes Lopes, nas proximidades do município de São José de Mipibu, como um dos points da dança na região nordeste.
A reportagem foi publicada no caderno de turismo do jornal, e aborda as idas e vindas do forró no gosto do grande público. "Samba e bossa nova são a face internacional da música brasileira, e o funk das favelas pode dominar o Rio de Janeiro, mas mesmo clubes da moda não resistem a tocar um ou dois forrós ao longo da noite", afirmou o repórter Seth Kugel.
Além da localidade potiguar, o repórter Seth Kugel recomenda também outras cidades pólos do forró como Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). As impressões do jornalista sobre a festa são interessantes do ponto de vista de um estrangeiro que acabou de conhecer o ritmo, explicando como se pronuncia o nome forró, entre outras curiosidades. Ele começa a reportagem com o impacto da primeira observação da cena, ao chegar em São José de Mipibu: “Numa ruazinha de pedra numa cidadezinha sem importância do nordeste do Brasil, num rancho sob a luz da lua nas redondezas de São José de Mipibu, três homens em roupas de cowboy azul e prateado brilhantes faziam música com um acordeón, um triângulo e uma zabumba".
Falou sobre os detalhes nos costumes das pessoas que freqüentam o local, fazendo um paralelo com a cultura americana: "Muitos jovens de jeans, a maioria das redondezas de Natal, bebiam cerveja, seguravam as mãos e se amassavam num terraço inspirado num curral", descreveu o repórter. As apresentações das bandas “Os três do Nordeste” e "Waldonys" foram chamadas de “música country brasileira originada no sertão nordestino”, que em sua descrição era “um local seco, cheio de galhos secos e onde o gado tinha o lombo magro”.
A referência ao mestre Luiz Gonzaga também aparece com destaque no jornal. "A música forró se espelhou no final dos anos 40 em Luiz Gonzaga, o cantor, compositor e mestre no acordeon que mudou-se para o Rio e fez da música Asa Branca um hit internacional". Ainda de acordo com a reportagem, o forró entra e sai de moda. E depois de seu retorno nos anos 90, se tornou uma espécie de "square dancing" rebolado aceito no grande meio”.
Depois de dar algumas dicas para os leitores que quiserem "provar" do ritmo, repórter ainda contou sua experiência na prática, quando dançou no Forró da Lua: "Consegui dar os passos, mas os meus quadris não estavam sentindo o zabumba”. ( Foto jornal Tribuna do Norte)
Veja o texto, do jornalista Seth Kugel, traduzido por Ana Luíza Moreira Braga (extraído do blog da Ailton Medeiros)
.“Mais ou menos a milha abaixo, numa rua e pedra do posto de gasolina Vitória, num rancho enluarado além de São José Mipibu, uma cidade de negligenciada importância no nordeste do Brasil, três homens em brilhantes trajes de cowboy azul e prata, fazem música com um acordeon, um triângulo e uma zabumba. Eles estavam extremamente sozinhos.
Centenas de jovens de blue jeans, a maioria da próxima cidade de Natal, bebia cerveja, ria e conversava num lugar inspirado em um curral. Centenas de casais apinhavam-se na pista de dança sob um teto de sapê, coxas travadas para a performance de uma dança sensual que deve ter emergido somente da cultura cowboy brasileira. O grupo, Os 3 do Nordeste, tocava forró, música country brasileira nascida no sertão nordestino - seco, com cactus, e pecuária - e difundido amplamente em 1940 por Luiz Gonzaga, o cantor, compositor, e mestre de acordeon que se mudou para o Rio de janeiro e fez da música Asa Branca um hit internacional.
Desde então, entrou e saiu de moda, mas depois de um revival nos anos 90 se estabeleceu num meio de aceitação “hip-to-be-square-dancing ” (Na verdade, o Brasil celebra o seu dia nacional do forró em 13 de dezembro. Samba e bossa nova são a cara internacional da música brasileira, e o funk das favelas do Rio”, mas os clubes da moda não resistem a um forró no final da noite”.
Depois de falar sobre o Nordeste e das figuras que encontrou em Pernambuco,ele recebeu a recomendação de ir a São José de Mipibu, para o Forró de Lua, que seria no dia seguinte.
“Na manhã seguinte, eu comecei o que eu supunha que seria uma viagem de quatro horas.
Com tempo suficiente para gastar (Forró de Lua dura das cinco da tarde até meia noite), eu dei uma volta não relacionada a forró em Olinda, a cidade colonial ao norte de Recife que é Patrimônio histórico mundial da Unesco. Mas nessa parte, isso mudou, forró não é tão fácil de se escapar. No bem servido restaurante Oficina do Sabor, o especial do dia era ‘camarões no forró’ descrito como “camarão com manga e molho de maracujá perfumado com leite de coco.” O que aquilo tinha a ver com forró não era claro. Mas o mistério foi desvendado quando o prato chegou, pares de camarão juntos em volta do prato, uma perfeita cópia crustácea das coxas interlaçadas na pista de dança.
De lá estava na estrada em direção a Natal, a cidade depois de São José de Mipibu, e Forró da Lua. O festival começou em 2002 por Marcos Fernandes Lopes, um rico engenheiro agrônomo, agora com 47 anos, que decidiu construir um lugar de forró no seu rancho. Sr. Lopes está também planejando um museu cowboy lá para completar os eventos de forró.
Você pode dizer que o evento foi um sucesso só pelo estacionamento lotado, pela fogueira maciça perto da entrada. Sr. Lopes mais tarde me disse que o evento regularmente atrai 2 mil pessoas por mês sem propaganda formal. Em um canto, algumas pessoas assistem a um documentário sobre Luiz Gonzaga; outros sentam em bancos de concreto, mesas de tijolo, bebendo cerveja e soda. Do lado externo das paredes, em volta, casais se beijam sob lampeões a gás. A noite segue, a fila da cerveja diminui e a fila do churrasco cresce. Mas a pista de dança, continua animada por uma banda de forró bem conhecida, Os 3 do Nordeste e Waldonys, a atração principal.
Os melhores dançarinos estão colados pelas coxas, movendo-se em tanta sintonia que parecem marionetes controlados por cordas. Um pequeno grupo fica em volta do jovem casal, de nome Giunelly e Luciana, que parece como se treinassem juntos a anos. Eu dei alguns passos com Claudia, mais uma mulher brasileira louca o bastante para dançar com um visitante americano. Dançamos algumas músicas, e então ela me deu minha nota. Eu dei os passos, ela disse, mas meus quadris não estavam sentindo a zabumba. Eu já fui chamado de coisa pior.” |