FORRÓ DA LUA: RESGATE MUSICAL EM NOME DA TRADIÇÃO NORDESTINA

Forró, clima de fazenda e lua cheia. A receita já parece boa, e fica ainda mais atrativa quando se inclui no tempero o amor pelas tradições nordestinas. Foi a partir desse sentimento que, há sete anos, o engenheiro agrônomo Marcos Lopes pôs em prática o Forró da Lua, uma espécie de festa-tributo ao mais autêntico ritmo nordestino, que ocorre uma vez por mês na Fazenda Bonfim, em São José de Mipibu, a 25 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Com uma boa organização e atrações musicais lendárias, de Genival Lacerda a Domiguinhos, a festa foi ganhando fama na base do boca a boca e hoje é a mais importante programação de forró de Natal.

Tudo começou em 2002, quando Marcos Lopes realizou em sua fazenda a 1ª Pega de Boi no Mato, campeonato inspirado numa atividade tradicional da pecuária nordestina, onde o vaqueiro adentra pela caatinga para pegar o boi que se embrenhou pela mata. Depois da competição, a noite acabou em forró. Era noite de lua cheia, e na ocasião alguém gritou: “esse é o forró da lua!”. Foi a partir dessa festa, e a pedidos dos amigos, que Marcos Lopes começou a promover um forró uma vez por mês em sua fazenda.

Como o próprio nome diz, o Forró da Lua é especial porque acontece um sábado por mês, no período da lua cheia. Seu calendário é divulgado já no início do ano em cartazes e panfletos espalhados pela cidade. A fazenda onde ocorre o Forró da Lua pertence à família de Marcos Lopes desde 1939.

Em pouco tempo de programação o forró já reunia grande público em torno dos shows, e as pessoas corriam atrás dos ingressos antecipados para garantir lugar. Atualmente, o horário do Forró da Lua é das 19hs às 02hs da madrugada, com duas ou mais atrações entre trios de pé-de-serra e atrações convidadas do RN e de outros estados. Por lá já passaram grandes nomes do forró nordestino, como a cantora Marinês, o sanfoneiro e cantor Dominguinhos, Genival Lacerda, Waldonys, Elino Julião, Petrúcio Amorim, Chiquinha Gonzaga (irmã de Gonzagão), Arlindo dos 8 baixos, Chiquinha do Acordeon, Os Três do Nordeste, entre muitos outros nomes lendários do ritmo.

Mas o lugar não vive só de festa. Funciona realmente como fazenda durante todos os seus dias pós-forró. E aí está parte do encanto que o local tem a oferecer para quem visita. “Aqui não é uma fazenda de faz-de-conta. A gente cria gado e ovelha, planta mandioca e milho. Eu conheci o forró nas fazendas, o que a gente faz é conservar as raízes dessa música”, disse Marcos Lopes, em entrevista ao jornal Tribuna do Norte.

Para chegar na Fazenda Bonfim, basta seguir pela BR-101, entre Natal e São José do Mipibu. Depois do posto da polícia Rodoviária Federal, seguindo em torno de 02 km, tem o acesso para à lagoa do Bonfim. A entrada do Forró fica distante 1,4 km da BR-101.

Durante o forró, os animais circulam pela área, na capoeira, e dão o clima autêntico ao local. O espaço onde o forró acontece é separado por uma cerca de varas ao estilo antigo; por dentro, tem palco, cobertura de telha e palha, algumas paredes de taipa, bancos de cimento, e os bares.

Além de natalenses, hoje os turistas também descobriram o “Forró da Lua”, que é realizado num espaço de cerca de 3.000 metros quadrados, com uma parte coberta para dançar e outra aberta, onde tem mesas e baias (espécie de camarote) para quem gosta de tomar sua cervejinha e conversar.

Segundo Lopes, o “Forró da Lua” não é apenas um lugar de dançar. “Aqui também temos a preocupação em difundir a cultura”, explica ele. Num telão, durante o “Forró da Lua”, as pessoas podem assistir documentários e show com artistas regionais, como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Patativa do Assaré, entre outros..”

EU QUERO MEU SERTÃO DE VOLTA!


Nos últimos dez anos tenho viajado freqüentemente pelo sertão de Pernambuco, e assistido, não sem revolta, a um processo cruel de desconstrução da cultura sertaneja com a conivência da maioria das prefeituras e rádios do interior. Em todos os espaços de convivência, praças bares e na quase maioria dos shows, o que se escuta é música de péssima qualidade que, não raro desqualifica e coisifica a mulher e embrutece o homem.
O que adianta as campanhas bem intencionadas do governo federal contra o alcoolismo e a prostituição infantil, quando a população canta “beber cair e levantar”, ou ‘dinheiro na mão e calcinha no chão”? O que adianta o governo estadual criar novas delegacias da mulher se elas próprias também cantam e rebolam ao som de letras que incitam a violência sexual? O que dizer de homens que se divertem cantando “vou soltar uma bomba no cabaré e vai ser pedaço de puta pra todo lado”? Será que são esses trogloditas que chegam em casa, depois de beber, cair e levantar, e surram suas mulheres e abusam de suas filhas e enteadas? Por onde andam as mulheres que fizeram movimento feminista, tão atuante nos anos 70 e 80, que não reagem contra essa onda musical grosseira e violenta? Se fazem alguma coisa, tem sido de forma muito discreta, pois leio os três jornais de maior circulação no estado todos os dias, e nada encontro que questione tamanha barbárie. E boa parte dos meios de comunicação são coniventes, pois existe muito dinheiro e interesses envolvidos na disseminação dessas músicas de baixa qualidade.
E não pense que essa avalanche de mediocridade atinge apenas os menos favorecidos da base de nossa pirâmide social, e com menor grau de instrução escolar. Cansei de ver (e ouvir) jovens que estacionam onde bem entendem, escancaram a mala de seus carros exibindo, como pavões emplumados, seus moderníssimos equipamentos de som e vídeo na execução exageradamente alta dos cds e dvds dessas bandas que se dizem forró eletrônico. O que fazem os promotores de justiça, juízes, delegados que não coíbem, dentro de suas áreas de atuação, esses abusos?
Quando Luiz Gonzaga e seus grandes parceiros, Humberto Teixeira e Zé Dantas, criaram o forró, não imaginavam que depois de suas mortes essas bandas que hoje se multiplicam pelo Brasil praticassem um estelionato poético ao usarem o nome forró para a música que fazem. O que esses conjuntos musicais praticam não é forró! O forró é inspirado na matriz poética do sertanejo; eles se inspiram numa matriz sexual chula! O forró é uma dança alegre e sensual; eles exibem uma coreografia explicitamente sexual! O forró é gênero musical que agrega vários ritmos como o xote, o baião, o xaxado; eles criaram uma única pancada musical que, em absoluto, não corresponde aos ritmos do forró! E se apresenta como bandas de “forró eletrônico”! Na verdade, Elba Ramalho e o próprio Gonzaga já faziam o verdadeiro forró eletrônico, de qualidade, nos anos 80.
Em contrapartida, o movimento do forró pé-de-serra deixa a desejar na produção de um forró de qualidade. Na maioria das vezes as letras são pouco criativas; tornaram-se reféns de uma mesma temática. Os arranjos executados são parecidos! Pouco se pesquisa no valioso e grande arquivo gonzaguiano. A qualidade técnica e visual da maioria dos cds também deixa a desejar, e falta uma produção mais cuidadosa para as apresentações em geral.
Da dança da garrafa de Carla Perez até os dias de hoje formou-se uma geração que se acostumou com o lixo musical! Não, meus amigos: não é conservadorismo sem saudosismo! Mas não é possível o novo sem os alicerces do velho! Que o digam Chico Science e o Cordel do Fogo Encantado que, inspirados nas nossas matrizes musicais, criaram um novo som para o mundo. Não é possível qualidade de vida plena com mediocridade cultural, intolerância, incitamento à violência sexual e ao alcoolismo!
Mas, felizmente, há exemplos que podem ser seguidos. A Prefeitura do Recife tem conseguido realizar um São João e outras festas de nosso calendário cultural com uma boa curadoria musical e retorno excelente de público. A Fundarpe tem demonstrado a mesma boa vontade ao priorizar os projetos de qualidade e relevância cultural.
Escrevendo essas linhas, recordo minha infância em Serra Talhada, ouvindo o maestro Moacir Santos e meu querido tio Edésio em seus encontros musicais, cada um com o seu sax, em verdadeiros diálogos poéticos! Hoje são estrelas no céu do Pajeú das Flores! Eu quero o meu sertão de volta!



Anselmo Alves
j.anselmoalves@hotmail.com

Espaço Relabucho - Entrada da Lagoa do Bonfim - São José do Mipibú/RN